Demanda por derivativo agrícola cresce no País
Por Fernando Teixeira, DCI
São Paulo, 16 de agosto – A demanda de grandes investidores por diversificação de investimentos faz gestores de fundos pensarem em alternativas como o mercado de commodities. Em julho, somente na BM&F Bovespa (commodities e contratos de juros, ouro, entre outros), o volume negociado foi de R$ 4,60 trilhões. Quando se isolam produtos agrícolas, como grãos e boi, a soma chega a R$ 4,695 bilhões.
Uma das gestoras de recursos que estão de olho em investidores qualificados e arrojados é a CapitalPlus Gestão de Ativos. De acordo com o diretor da empresa, Silas Dias da Costa, eles estão criando um fundo de investimento para comprar cotas de commodities nos EUA. Lá, o mercado, segundo Costa, movimenta cerca de US$ 300 trilhões diários. “A Bolsa de Chicago é referência na formação de preços e comércio para itens como ouro , moedas, soja e trigo.”
Gomes credita tamanho volume de divisas ao fato de que a moeda mundial para formação dos preços das matérias-primas é o dólar. “Operar naquele país é vantajoso porque não é preciso fazer contratos de dólar futuro para comprar os papéis. É uma grande facilidade, uma vez que os preços estão cotados em dólar.”
Ao DCI, o diretor da gestora de capital contou que a demanda de investidores que procuram investir em commodities aumentou no Brasil. Para atender este público, sua empresa criará um fundo qualificado com cotas mínimas de R$ 1 milhão. “Compraremos 90% em fundos de commodities no exterior e o restante em títulos públicos brasileiros. Buscamos clientes com disponibilidade de milhões para diversificar o investimento.”
O objetivo do fundo é trazer ao investidor rendimento de 2,5% a 4% ao mês. “Os fundos brasileiros, geralmente lastreados em ações, olham muito para o rendimento de Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Geralmente o rendimento é de 106% do CDI (Selic). Claro que vai depender do valor do CDI.”
Outro argumento para atrair o investidor é o rendimento anual da aplicação. “Temos operações com risco equivalente ao do mercado de ações. Contudo, o potencial de retorno é maior no médio e no longo prazo. Na renda variável, no ano, o potencial de rendimento é de 20% a 25%; no mercado de commodities o potencial gira entre 40% e 45% ao ano.”
O executivo diz que a empresa prospecta mercado, mas não revelou se já tem investidores. Segundo ele, o foco será o investidor institucional, ou fundo de pensão com alto poder aquisitivo. “No final de 2009, o patrimônio estimado destes fundos era de R$ 470 bilhões.”
Os clientes de alta-renda dos bancos e as grandes empresas que usam parte de capital para investimentos financeiros também são alvos da CapitalPlus.
Na opinião de Dias da Costa, se o governo brasileiro regulamentasse a possibilidade de as corretoras terem uma conta em dólar, o volume de negócios desse tipo poderia ser maior no Brasil. “As empresas brasileiras que vendem matérias-primas no exterior poderiam vender aqui e aumentar o volume negociado”, opinou.
Risco
O professor do curso de Administração da ESPM Adriano Gomes avaliou que é necessário ter “nervos de aço” para aplicar em commodities. “Existe muita volatilidade no mercado. O ‘zeramento’ das operações acontece diariamente. Se o investidor coloca R$ 1 milhão e o produto varia R$ 300 mil para baixo, o investidor é obrigado a liquidar. Isto afasta investidores”, avalia o professor.
Segundo ele, o Brasil tem a terceira maior bolsa destes ativos no mundo. “As negociações mais comuns são as de contratos de hedge, principalmente os de produtos agropecuários.”
Na visão do professor de Economia e diretor da Fractal Instituto de Pesquisa, Celso Grisi , os preços, principalmente os dos grãos, tiveram muita variação nestes últimos dias.Grisi contou que a variação brusca aconteceu devido ao anúncio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) de que o país tem estimativa de produção de 93,4 milhões de toneladas de soja e 339,5 milhões de toneladas de milho na safra 2010/2011. O mercado esperava menos: 91,4 milhões de toneladas de soja e 333 milhões de milho. “Com este panorama, a Bolsa de Chicago teve alguns dos pregões mais agitados do ano. Precisa ver se as previsões são verdadeiras.”
De acordo com ele, os preços funcionam como uma engrenagem: “Sobe o preço do trigo, e como consequência sobe o milho, a mandioca, que substitui parte da farinha de trigo, e o pãozinho na padaria também”. Outros ativos que tiveram alta de preço e se recuperaram frente ao ano passado, de acordo com Grisi, foram suco de laranja, algodão – em falta no mundo – e café. “Além disso, os metais, as moedas e os títulos federais brasileiros subiram muito.”
Na visão do professor, pessoas físicas devem ficar longe de investimentos em mercado de commodities. “É muito arriscado. Acredito que para ingressar no mercado é preciso estar ciente dos grandes riscos e ter apetite para especular”, afirmou.
Ele lembrou de empresas, como a Sadia, que especularam com derivativos para alavancar-se e perderam o patrimônio. “Sou favorável a que grandes fazendeiros e usineiros façam um fundo de commodities para mitigar o risco das operações com carne e açúcar, por exemplo.”
BM&F
O segmento BM&F (incluindo financeiros e agropecuários) registrou negociação de 60, 110 milhões de contratos e volume financeiro de R$ 4,60 trilhões em julho, ante 43, 313.807 milhões de contratos e giro de R$ 2,87 trilhões em junho.
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